Onisciência

27/10/2017

Isto É

Seria uma heresia comparar Deus com a sociedade? Acho que não, e como não estamos na época da Inquisição nem de Torquemada podemos fazer tais ilações e delírios.

O filósofo Luiz Felipe Pondé diz que a narrativa cósmica é associada a práticas cotidianas. E que a narrativa dá sentido às práticas e as práticas dão corpo à narrativa. Seria essa a inter-relação entre Deus e a sociedade?

Procuro ver, sem discordar, por outro ângulo. Deus é onisciente, onipresente e onipotente. A sociedade também poderia ser. Guardada as devidas proporções. A sociedade é onipresente. Está em todos os lugares, como Deus. Ela, a sociedade, também é onipotente: tudo pode. Inclusive fazer revoluções, derrubar ou eleger governos, influenciar políticas públicas, mostrar caminhos e até mesmo se autodestruir. A sociedade pode fazer o seu apocalipse como construir o paraíso.

A combinação de onipresença e de onipotência faz da sociedade, potencialmente, o ente mais poderoso de um país.
Não é esse, porém, o caso brasileiro, pois a nossa sociedade não se utiliza adequadamente de sua onipresença nem de sua onipotência. Pelo fato de que não é onisciente. Pouco ou nada sabe sobre como funcionam a máquina da política e os meandros do governo. Em não sendo onisciente, pouco faz com sua onipresença e sua onipotência.

E como tal fato ocorre no Brasil?

A nossa sociedade relaciona-se de forma interesseira com o governo. É uma relação em que predominam os interesses sobre os princípios. Por quê? Porque somos uma sociedade ignorante, não apenas no que se refere à educação básica e formal, mas, sobretudo, no que tange à educação cidadã. Aí reside nossa imensa ignorância. Não sabemos de nada e não conseguimos romper o véu de opacidade que o Estado impõe à sociedade.

Em sendo assim, de nada vale sermos uma sociedade onipresente e onipotente, já que não sabemos para onde ir e os faróis que tentam nos guiar estão contaminados por agendas de poder e de interesse.

Sabemos que a sociedade jamais será onisciente. Mas poderá ser menos ignorante e mais reflexiva. Sobre tudo desconfiando dos que se vestem de bondade e de boas intenções. Pois o mau muitas vezes se disfarça de bom, de politicamente correto, de libertário. Lute pela sabedoria e pela desconfiança. Pois, como disse Santo Agostinho, mais vale ter dúvidas sobre temas complexos do que certezas de difícil comprovação.

Enviado por Murillo de Aragão 08, novembro, 2017 | 16:18

A carta de Churchill

02/11/2017

Blog do Noblat

Era noite quando o trem chegou a Vladivostok, cidade portuária da Rússia. Havia nevado, mas a temperatura estava um pouco melhor. Fazia cerca de zero grau. O diplomata japonês Yosuke Matsuoka estava enfastiado da longa viagem que fizera, via Moscou, desde Berlim. Em Moscou, assinara um tratado de neutralidade com a Rússia.

Por meio de um emissário, Matsuoka recebeu uma carta de Winston Churchill, primeiro-ministro do Reino Unido. Estamos em abril de 1941 e o Japão ainda não havia entrado na Segunda Guerra Mundial. Mas Matsuoka tinha sido fortemente pressionado a aderir ao conflito durante sua visita à Alemanha. Em Berlim, Adolf Hitler pedira a ele que o Japão invadisse Singapura, possessão britânica no Sudoeste Asiático.

Porém, nem Matsuoka nem Hitler sabiam o que Churchill sabia. A inteligência britânica havia decifrado os códigos secretos dos alemães, dos italianos e dos japoneses. Assim, Churchill pôde mapear a visita de Matsuoka e as mensagens trocadas entre ele e Tóquio. Churchill conhecia os movimentos dos inimigos.

Filho de um empresário rico, Matsuoka fora educado na Universidade de Oregon, nos Estados Unidos. Era um homem refinado e de bons gostos, ocidentais e orientais. Durante o tempo que passou nos Estados Unidos converteu-se ao cristianismo e era conhecido como Frank. Mas, quando voltou ao Japão, não conseguiu usar seus créditos de Oregon para entrar na faculdade de Direito de Tóquio. Foi então para a diplomacia, onde chegou ao topo em 1940, ao se tornar ministro dos Negócios Estrangeiros do Império do Japão.

Uma de suas primeiras missões foi justamente visitar Adolf Hitler. Mesmo tendo um passado “americanizado”, Matsuoka era forte defensor da aliança entre o Japão, a Itália e a Alemanha. Enquanto aguardava os arranjos para voar de volta para o Japão, Matsuoka abriu o envelope com a carta de Churchill. Ali estava, em poucas páginas, um dos documentos mais importantes para uma análise política sobre o período.

De uma forma pragmática e humilde, Churchill pedia que Matsuoka refletisse sobre as suas perguntas e as respondesse a si mesmo. Sugeria que, em sendo pragmático, realista e sincero, o Japão não deveria entrar em guerra contra a Inglaterra. Ao invés de ameaçar com retaliações, Churchill simplesmente pedia que o chanceler japonês refletisse sobre algumas questões simples, mas fundamentais para o desenrolar da guerra.

Em que pese a carta não ter desestimulado o Japão a entrar na guerra, serviu, pelo menos, como uma espécie de “eu bem que avisei”. A Itália foi um peso para os alemães. O Japão provocou a entrada de vez dos norte-americanos na guerra e, de quebra, os japoneses foram alvejados por duas bombas atômicas. O Eixo foi derrotado.

O destino deu a Matsuoka uma janela de oportunidade para antever o que aconteceria com o seu país. E ele não soube aproveitá-la. Logo depois, caiu em desgraça. Do episódio fica a lição de que Churchill era um homem de visão que conseguiu exercer com pragmatismo uma das principais e mais difíceis qualidades do ser humano: a empatia. Churchill se colocou no lugar do líder japonês e, a partir daí, fez uma análise do que poderia acontecer.

Em tempo: a carta de Churchill chegou às mãos de Matsuoka, conforme nos conta Martin Gilbert em seu magistral livro sobre Churchill, A Study of Life, mas não tenho certeza se isso aconteceu em Vladivostok ou Moscou. Pouco importa. O que importa é a liderança de pragmatismo, humildade, empatia e inteligência que foi dada por Churchill. Qualidades que poucos possuem nos dias de hoje no Brasil e no mundo.

Enviado por Murillo de Aragão 08, novembro, 2017 | 16:12

Ainda vai levar um tempo

26/10/2017

Blog do Noblat

A Operação Lava-Jato parece o Rock in Rio. Ocorre simultaneamente em vários palcos. Oferece espetáculos para todos os gostos. Alguns palcos agradam o mais radical ativista jurídico, em especial aqueles que querem que tudo acabe logo em uma cena com um político na cadeia.

Outros shows, bem menos numerosos, empolgam aos garantistas. Garantistas são aqueles que seguem os ritos e as normas. Reconhecem o benefício da dúvida e que todo mundo é inocente até prova em contrário. Os ativistas não gostam disso. Acham que os garantistas usam as leis para proteger os cretinos.

O populacho, que gosta de drama e novela, torce o nariz para os garantistas. Eles são tachados de coniventes com “tudo isso de ruim que está por aí”.  Talvez para a maioria a vida política deveria ser jogada como um jogo de futebol, no qual com o cartão vermelho expulsaríamos todos os ladrões e desleais. De preferência, do time do adversário.

Para piorar, temos duas heranças perversas. O regime militar nos legou o desprezo pela autoridade. Que, lamentavelmente, confundimos com autoritarismo. Terminamos repelindo os dois. Já a redemocratização nos trouxe uma profunda ojeriza à política. Em geral, achamos que ela não presta, é coisa de corruptos. Também repelimos os dois.

A tendência à generalização ofusca nossa visão de mundo, desconsidera a importância daquilo que outras sociedades construiram, deixa de levar em conta as boas experiências. Ou seja, nega o próprio modelo de país que pusemos em prática num passado bem recente.

Eis o caminho do fracasso para um país: não acreditar nas leis, nos direitos, nas garantias, na autoridade e na política. Sobretudo, não participar conscientemente da política.

Lamentavelmente, trilhamos esse caminho sem perceber que ora a maré está a favor de nossos interesses e ora está contra.  Não dá para ser a favor do foro privilegiado quando o STF condena José Dirceu e ser contra quando o tribunal alivia alguém de quem não gostamos.

Viver de torcida, em todos os sentidos, não é um bom caminho a seguir. Torcer faz parte, mas não deve ditar o ritmo das coisas. Deturpar os argumentos e estressar a lei para fazer justiça a qualquer preço, tampouco é uma alternativa.

O caminho do fracasso tem que ser evitado a partir de uma postura menos eloquente e mais racional, com base no legado que a humanidade nos deixou: ordem, autoridade, respeito às leis e honestidade.

Idealmente, caberia à sociedade buscar tais caminhos a partir de princípios e não de preferências nem de interesses. Porém, como disse, Lulu Santos, “ainda vai levar um tempo, para curar o que feriu por dentro”.

Enviado por Murillo de Aragão 08, novembro, 2017 | 16:10

Conspiração, a teoria

Brasao_Policia_Federal_auditorio_RN

12/10/2017

Isto É

Imaginem um personagem que é obcecado por teorias da conspiração e que, no final das contas, se torna vítima de uma delas. É o que acontece no filme Teoria da conspiração (1997). Aqui no Brasil estamos vivendo uma situação igual. Rodrigo Janot, então procurador-geral da República, recebeu a promessa de que os irmãos Batista, da JBS, dariam a ele a cabeça do presidente Michel Temer. Era o segundo ato de uma história maluca. Correndo o risco de perderam os benefícios que tinha obtido no âmbito da Operação Greenfield, os irmãos Batista foram docemente constrangidos a produzir uma bala de prata a pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR). O constrangimento incluía as instruções do que seria um bom acordo de delação.

Pouco antes, o procurador Marcelo Miller seduziu e foi seduzido por propostas de trabalho no setor privado. Capturado pelo radar da JBS, fechou com um escritório que prestaria serviços à empresa. Ainda como procurador, almoçou com seu cliente, negociou honorários e reuniu-se com seus novos colegas de trabalho. Tudo nas barbas de seu chefe, Rodrigo Janot. Para ampliar a conspiração, áudios foram vazados acidentalmente. Eram diálogos altamente comprometedores que jogavam sobre o processo um balde de lama. Quando se descobre o envolvimento do procurador Miller com o acordo fechado com a PGR pelos irmãos Batista, a PGR pede a prisão de Miller. Mas, estranhamente e contra as evidências, o Supremo Tribunal Federal (STF) não autoriza. Igualmente estranho, a PGR não recorre.

No meio da confusão, outro procurador é preso por 76 dias e, também estranhamente, não é interrogado. Por que não quiseram ouvir o procurador Angelo Goulart? É o mesmo procurador que foi, no meio do imbróglio, grampeado e advertido para sair do caminho de Janot. A conspiração prossegue com uma gravação não periciada e não autorizada de um presidente da República sendo usada como prova para uma investigação. No mínimo houve precipitação do ministro Edson Fachin, do STF. Aliás, precipitação é o que mais existe nesse caso.

Imaginem também que decorreram menos de três meses desde a ameaça de cancelamento dos benefícios obtidos pela JBS no âmbito da Operação Greenfield, no final de fevereiro, a gravação de Joesley Batista com o presidente no Palácio Jaburu, no início de março, e a homologação do acordo de delação pelo ministro Edson Fachin, em 10 de maio. Muito estranho, já que existem algumas propostas de delação que se arrastam há anos. O que justificaria que um acordo tão extravagante e abrangente pudesse ser fechado em tempo recorde? Seria a tal da conspiração ou apenas precipitação? O enredo montado para ser a bala de prata que derrubaria o presidente Temer e, ao mesmo tempo, livraria a cara dos irmãos Batista de todas as suas tramoias virou uma imensa confusão.

Rodrigo Janot transformou-se em um inspetor Clouseau e de investigador pode terminar sendo investigado. Afinal, ninguém está acima da lei. Nem mesmo a PGR e seus titulares.

Enviado por Murillo de Aragão 20, outubro, 2017 | 14:58

Leviatã

Unknown

29/09/2017

Isto É

Não criamos o monstro chamado “Estado brasileiro”, cuja missão precípua é se alimentar e crescer para atender às necessidades do crescimento da burocracia. O monstro é que nos criou como nação. Fomos paridos das entranhas de um reino altamente burocratizado. O monstro pariu as capitanias hereditárias, as licenças e os alvarás. As filas e as senhas. Os despachantes. E o pistolão.

O monstro pariu bons empregos com belas aposentadorias e planos próprios de saúde, como aquele da Casa da Moeda, recentemente rompido por ser excessivo aos cofres públicos. O monstro também fez com que as verbas dos fundos de universalização das telecomunicações fossem usadas para pagar serviços odontológicos de funcionários públicos, ao invés de serem direcionadas para a finalidade a que se destinavam.

O monstro criou uma alegoria democrática que nos engana e cujos detalhes estão escondidos sob uma grossa nuvem de opacidade. O monstro pode ser mau e pode ser bom. Depende do ponto de vista. Como nação, transformamos a burocracia, para muitos, em meio de vida. Seja para quem cria a burocracia. Seja para quem facilita a burocracia. Seja para quem está na intermediação da venda de facilidades para contornar as dificuldades. Conforme a Operação Lava-Jato revela.

De acordo com pesquisa do IMD (International Institute for Management Development), o Brasil perde posições – pelo sétimo ano consecutivo – no ranking mundial de competitividade. Ocupamos uma vergonhosa 61a posição. É um país forjado para não ser estruturalmente competitivo. Na verdade, somos competitivos de forma oportunista. Como já fomos durante os ciclos da borracha e do café e, agora, em relação ao minério de ferro e à soja. Mas somos dramaticamente, fundamentalmente, não competitivos.

O dramático reside no fato de que poucos no mundo político enfrentam o Leviatã e muitos na sociedade não se dão conta do perverso domínio a que somos submetidos.

Não proponho a anarquia nem o Estado mínimo, e sim o Estado necessário e eficiente. Critico o Estado voltado para si mesmo em detrimento da sociedade. Ataco o Estado que serve ao corporativismo e sufoca a iniciativa privada e individual. Ataco o Estado hiper-regulado, que patrocina uma carga tributária insana e complexa, os maiores juros do mundo civilizado e uma legislação trabalhista que gera o desemprego.

Quando promovemos maior abertura ao capital privado nas concessões e quando buscamos reduzir a burocracia, estamos apenas arranhando o casco duro do Leviatã. Ainda falta muito para nos livrarmos dessa escravidão.

Enviado por Murillo de Aragão 20, outubro, 2017 | 14:48

Segunda denúncia de Janot contra Temer perde a força

image

04/10/2017

O Tempo

Três episódios estão enfraquecendo, e muito, a denúncia do ex-procurador geral da República Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer. E, em consequência, aumentando as chances de que ela seja rejeitada pela Câmara dos Deputados. E, por tabela, ameaçando tanto o acordo de leniência da JBS como a validade das provas que embasaram as duas denúncias de Janot.

A primeira questão refere-se aos novos diálogos gravados entre Joesley Batista e Ricardo Saud, agora revelados, em que ambos desvendam, um pouco mais, as manobras para implicar Temer a mando da Procuradoria Geral da República. A conversa – publicada na revista “Veja” neste fim de semana – mostra que os procuradores ficaram decepcionados com a gravação do diálogo entre Joesley e Temer e queriam mais evidências. As novas revelações jogam mais suspeitas sobre como o processo foi conduzido.

A segunda questão está na entrevista dada pelo ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha à revista “Época”, em que afirma que a ausência de evidências que comprometessem o presidente Michel Temer impediu que ele fechasse um acordo de delação premiada com a Procuradoria. Ou seja, sem fatos que implicassem Temer depois que ele assumiu a Presidência da República, não haveria interesse no acordo. Parece que Janot não queria apurar fatos. Queria, simplesmente, derrubar o presidente. Com ou sem razão.

O terceiro episódio está para acontecer e pode ampliar, sobremaneira, os problemas do ex-procurador geral. O procurador Angelo Vilela, que ficou preso por mais de 70 dias sem ser ouvido (no melhor estilo dos regimes autoritários), vai depor na CPMI da JBS nesta semana e parece disposto a dar detalhes que podem constranger, ainda mais, Rodrigo Janot. Basta revelar um pouco do que sabe a respeito das tratativas para a montagem da trama que resultou na gravação do presidente.

Em consequência, fica reforçada a percepção do mundo político de que Rodrigo Janot agiu de forma deliberada e intencional para criar condições que pudessem incriminar Temer. Portanto, sem fatos novos, como revelações adicionais, a segunda denúncia caminha para o arquivo.

Mas o governo, que esperava encerrar o assunto o mais rápido possível, deve consumir boa parte do mês de outubro com o tema na agenda da Câmara. O Planalto esperava votar a denúncia em plenário antes do feriado do dia 12. Muito provavelmente, no entanto, a votação ficará para a semana do dia 23. Nesta semana, o presidente Temer e os ministros da Casa Civil, Eliseu Padilha, e da Secretaria Geral da República, Moreira Franco, apresentam suas defesas na Comissão de Constituição e Justiça. Após a apresentação, o relator, deputado Bonifácio Andrada (PSDB-MG), terá cinco sessões para ler seu parecer.

Considerando que a defesa possa ser apresentada na quarta-feira (4), o relator teria até a quarta seguinte (11) para ler o parecer. Com pedido de vista, a votação ficaria para a semana do dia 16. Em geral, a comissão se reúne às terças-feiras. Os debates devem demorar.

Todos os 66 membros e seus respectivos suplentes poderão falar por até 15 minutos. Outros 40 deputados não membros da comissão (20 favoráveis à denúncia e 20 contrários) também terão direito à fala por até dez minutos. Ou seja, a votação na CCJ pode ser concluída no dia 18 de outubro.

Depois, o parecer da comissão será lido no plenário da Câmara na quinta (19). Com isso, poderá ser incluído na pauta de votações. Como dificilmente haverá quórum numa sexta-feira para votar a matéria, o mais provável é que a votação ocorra na semana seguinte. Ou seja, no dia 24.10.

Enviado por Murillo de Aragão 20, outubro, 2017 | 14:41

Coragem e covardia

suicidio

12/10/2017

Blog do Noblat

Montaigne, além de escritor e filósofo, foi um jurista e político que viveu no século XVI. Mesmo século  de  Leonardo da Vinci,  Machiavelli e Martim Lutero. De certa forma, ele conheceu alguns brasileiros. Em 1562, Montagne conversou, com ajuda de tradutores, com três índios tupinambás que foram à França a convite do rei.  Ao perguntar o que considerava admirável no mundo que estavam conhecendo, os índios responderam que viram uns com muito e outros com nada e os sem nada, complacentes com os ricos. Talvez esse encontro tenha influenciado Montaigne a acerca de seu entendimento sobre coragem e covardia.

Certa feita, invoquei Machiavelli em uma suposta passagem sua por Brasília. Hoje imagino se Montaigne passasse pela Capital Federal. O que iria achar da conduta dos homens púbicos do país em meio à crise institucional que tortura o país frente a que pensava sobre coragem e covardia. Homem rico, gostava de viajar e dedicou-se a passear pela Europa recolhendo as observações que povoam seus famosos ensaios. Brasília certamente seria um lugar de grandes observações.

Montaigne foi muito popular em seu tempo e passou o final da vida escrevendo, cercado de livros. Erudito, amparava afirmações com transcrições de antigos filósofos gregos e romanos, bem como com episódios da Antiguidade. Dono de bom gosto, dizia que a vida só valeria a pena se fosse dedicada aos livros, aos amigos e às mulheres bonitas, de preferência inteligentes.

Um dos muitos temas abordados por ele foi a morte, e como encará-la. Disse ele: “Se a morte fosse um inimigo a evitar, eu aconselharia a empregar as armas da covardia.” Para Montaigne, a morte atinge o covarde e o corajoso, independentemente da atitude frente a ela.  Por ser inevitável, para ele seria melhor enfrentá-la com coragem. Não é o que acontece nos dias de hoje no Brasil.

Em Brasília, Montaigne veria muitos que tentam se proteger da queda da casa – literalmente, a casa caiu –, ao invés de enfrentar o problema de frente. O mundo político, por seus vícios e por covardia, se apequena diante de seus equívocos e mal-feitos, da  hiperjudicialização e das peripécias de um ativismo judicial desmedido. Caberia às lideranças políticas fazer um mea culpa e tentar tratar de reconciliar institucionalmente o país.

Porém, nada acontece. Falta coragem institucional.  Deveriam buscar uma solução institucional. Afinal, estariam todos prejudicados – tanto covardes quanto corajosos. Já que o fim é inevitável, uma morte gloriosa seria o melhor caminho. Mas, como baratas tontas frente aos dribles de Neymar, escondem-se em subterfúgios, tecnicalidades e contradanças. Não vai dar certo.  O país não pode ficar sangrando a espera que o tempo a tudo cure.

Enviado por Murillo de Aragão 20, outubro, 2017 | 14:38

A lenta evolução das regras eleitorais

reforma_poliica_01

05/10/2017

Blog do Noblat

Quase todo ano o mundo político propõe alguma mudança no sistema político nacional, aí compreendidos tanto o sistema eleitoral, com suas regras, quanto o sistema partidário.  É uma longa guerra de fricção entre uma sociedade desencantada com a política e um mundo político complacente com suas franquias.

A necessidade de mudança é grande, mas como a vontade de mudar é quase nenhuma, vivemos no mundo de Tancredi, personagem de Giuseppe Lampedusa no magistral “O Leopardo”: algo tem que mudar para que as coisas continuem como estão. Tem sido assim nas últimas décadas. Ocorrem avanços e retrocessos ao sabor dos acontecimentos e das conveniências.

Para não ir longe, aponto o ano de 2010 como um marco no sistema político-eleitoral por causa da aprovação da Lei da Ficha Limpa pelo Congresso Nacional. Foi, por conta da pressão da sociedade, uma grande conquista.  Mas, adiante, em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) decretou que não existe perda de mandato para ocupante de cargo majoritário que mude de partido.  A medida, ainda que guarde certa coerência, desmoralizou – ainda mais – o sistema partidário nacional.

Naquele ano, o Congresso Nacional, no âmbito de uma minirreforma eleitoral, estabeleceu teto de despesas por candidatura. Foi uma medida importante que abriu caminho para a redução dos pornográficos gastos de campanhas eleitorais no Brasil. Ainda em 2015, o STF  decidiu acabar com o financiamento empresarial das campanhas, eliminando, assim, o “doping” financeiro e principal instrumento de manipulação de resultados eleitorais no país. As duas medidas foram muito importantes.

No ano seguinte, o STF decidiu que as emissoras de radio e televisão poderiam selecionar quais candidatos convidar para debates eleitorais. Ao invés da obrigatoriedade de convidar a todos. Mesmo candidatos com  preferência ínfima nas disputas.  Reduziu-se um pouco a poluição eleitoral.

Em 2017, mais duas decisões de peso. O Congresso estabeleceu uma cláusula de barreira para os partidos em 2018, providência fundamental para minimizar a fragmentação partidária na Câmara dos Deputados. Ainda que a barreira interposta seja generosa, é um caminho para o aperfeiçoamento do sistema. Outra decisão foi a imposição do fim das coligações partidárias para as eleições legislativas a partir de 2020. Trata-se de medida excepcional que, lamentavelmente, não vai vigorar nas próximas eleições.

Devemos,  por outro lado, lamentar, a decisão de permitir que seja praticado o telemarketing eleitoral. Candidatos poderão disparar, em massa,  as chatíssimas ligações telefônicas com propaganda eleitoral. Considerando o número de candidatos, pode ser um tormento para o eleitor.

Ao tempo em que escrevia este texto, o Congresso ainda decidia sobre o fundo eleitoral. O fundo não é a melhor solução, mas, pelo menos, está sendo criado tendo em vista recursos já existentes e não lastreado por verbas novas.

Por fim, a Justiça, para não ficar atrás no surto anual de mudanças,  também decidiu sobre o alcance retroativo da Lei da Ficha Limpa. Uma medida, no mínimo, polêmica já que termina fazendo valer os efeitos de uma lei sobre situação anterior à sua existência.  Data venda quem votou a favor, a medida não me parece adequada.

O STF também vai julgar a validade de candidaturas presidenciais avulsas. Medida que já tem o apoio da Procuradoria Geral da República. Mas que guarda imensas dificuldades de natureza operacional. Vamos ver o que vai acontecer.

O saldo, apesar de modesto frente às necessidades de aperfeiçoamento de   nosso sistema político, é significativo. Não dá para dizer que não houve alguma melhora. O sistema, aqui e ali, sob pressão e com a interferência – nem sempre negativa, nem sempre positiva –  do STF, está sendo modificado. Falta o nosso eleitor melhorar também.

Enviado por Murillo de Aragão 20, outubro, 2017 | 14:36

Utopia e renovação

outro-lado

19/10/2017

Blog do Noblat

Chegamos aonde chegamos por conta de nossas elites. Uma parte “privatizou” o Estado de acordo com seus propósitos, tanto ideológicos quanto financeiros. Em alguns casos, inclusive, corrupção e corporativismo andaram juntos no assalto aos cofres públicos. Outra parte das elites, por desprezo à política, preferiu se omitir e, de longe, criticou a tudo e a todos. Em especial, o governo, por não atender às suas expectativas, mas poucos quiseram ir lá, a Brasília, defender de peito aberto suas convicções.

Nossas elites intelectuais se dividiram entre uma utopia socialista e um nacionalismo tacanho que tem o Estado como centro de tudo. Nossas elites sindicais estão acomodadas em uma espécie de “neopeleguismo”, parcialmente rompido com o fim do imposto sindical. Na base de tudo existe um brutal desprezo aos princípios e às instituições, fruto da precariedade de nossa Sociedade frente ao avassalador predomínio do Estado, que, acredita-se, tudo pode e tudo deve nos dar.

Além de nossa pouca educação como cidadãos, gravitamos em torno de um quadro patológico que é o do “Estadodependência”, quando, na verdade, o que devemos almejar é um Estado que seja verdadeiramente subserviente à Sociedade. Sem, finalmente, entendermos que a raiz de tudo está na abissal diferença entre os poderes do Estado e a Sociedade, a expectativa de uma genuína renovação política continuará utópica.

Um exemplo da nossa vocação para o “Estadodependência” está nos obstáculos criados para reformar a Previdência. Uma decisão que deveria ter sido tomada há 20 anos, cujos fundamentos financeiros são inquestionáveis e razoabilidade política cristalina está encalhada no Congresso.

A proposta corre o risco de chegar ao final do ano sem ser votada, comprometendo o futuro do Estado que se supõe defender e empobrecendo a Sociedade que assiste o erro sem se envolver.

O que fazer? Participar racionalmente do processo eleitoral. Votar com cuidado, observando quem defende os interesses da Sociedade e quem defende os interesses de corporações e subsegmentos econômicos e/ou laborais. Procurar questionar o fluxo da informações disponíveis para não ser tragado pela deliberada inundação de desinformação – aquilo que Robert Proctor, da Universidade de Stanford, chama de “agogynotol”.

Nos tempos de “fake news” e de ativismo periodista, estar superinformado não quer dizer, necessariamente, estar bem informado. O caminho da renovação reside, acima de tudo, dentro de nós.

Enviado por Murillo de Aragão 20, outubro, 2017 | 14:28

Palavras radioativas de Palocci

lula_e_palocci

Blog do Noblat

28/09/2017

A carta do ex-ministro Antonio Palocci à direção do PT foi uma bomba de nêutrons que implodiu o PT. Mas, como os jornais, partidos também demoram a morrer. A velha Arena sobrevive até hoje no conhecido PP.  O PT vai sobreviver, ainda que muito ferido. Desmoralizado e merecedor daquela sensação triste de vergonha alheia.

Não há dúvida nas afirmações de Palocci. Quase todas foram comprovadas por movimentações financeiras. Palocci, como ele próprio admite, era um dos operadores mais íntimos das entranhas da legenda. Sabia de tudo. Mas, como se sabe, ele terá que provar pelo menos minimamente tudo o que afirmou sobre Lula. As acusações devem ser acompanhadas de um corpo de provas robustas. Não deverá ter muitas dificuldades.

Lembro que o falecido deputado Ulysses Guimarães, nos tempos da Constituinte, ficou espantado ao ver uma foto de Lula em uma piscina em uma casa no  Lago Sul em Brasília. Estranhou o fato de o líder operário estar gozando das delícias da burguesia que tanto atacava. Resmungou que Lula gostava de viver de obséquios.

Palocci acusa o ex-presidente Lula justamente de viver de obséquios e de colocar a conta em dona Marisa. A reação do PT é patética. Parece a negação da realidade dos discípulos de Jim Jones, aquele líder religioso que levou centenas ao suicídio coletivo na Guiana, em 1978.

Lula, o líder que transformou o PT em seita, age como Jim Jones, ao se negar a fazer autocrítica séria de sua conduta e de seu partido.  Palocci, como seu ex-colaborador mais íntimo, sabe disso e está avisando que os tempos são outros.

A reação do PT é estonteante e lunática. Não poderia ser diferente para uma seita que pensa que é  partido, tal qual uma borboleta que nunca deixou de se considerar  lagarta.

Para outros, com mais sangue-frio, a negação é estratégica, já que, instrumentalmente, a maioria do PT entende que os fins justificam os meios e que Palocci é um rato traidor que merece ser abandonado.

No final das contas, a radioatividade das palavras do Palocci vai continuar a corroer o partido. Não seria melhor fazer uma grande autocrítica, propor um inédito acordo de leniência e dar o primeiro passo que deveria ser seguido por outros partidos igualmente comprometidos com os escândalos denunciados pela Lava Jato?  Existirá grandeza e inteligência para tanto?

Enviado por Murillo de Aragão 29, setembro, 2017 | 15:59