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Artigos de Murillo de Aragão
22/04/2010 16h11m
Lula, a sucessão e a quebra de paradigmas
Murillo de Aragão
Logo após sua reeleição, em 2006, Lula viu a necessidade de trabalhar um nome de sua confiança para sucedê-lo no Palácio do Planalto. Como ele não poderia concorrer a um novo mandato, anteviu uma disputa ferrenha dentro do PT e entre os seus aliados. Trabalhou para neutralizar o potencial conflito. Com o desgaste político de sucessores em potencial, Lula viu na então ministra Dilma Rousseff, pessoa de sua confiança, uma possibilidade concreta. Dilma mostrou condição gerencial ao assumir uma Casa Civil que era mais política do que gerencial. Fez o governo funcionar melhor. O passo seguinte foi dar a ela o comando do programa tido como carro-chefe do seu segundo mandato, o Programa de Aceleração do Crescimento. Criando impacto a favor de sua escolhida, classificou-a como a “mãe do PAC”. A partir daí, tornou suas viagens pelo país com a ministra uma rotina. Ao mesmo tempo, Lula procurou evitar que sua base de apoio do Congresso se dividisse e lançasse candidatos à presidência. Ainda em 2006, PDT, PSB e PCdoB formaram o chamado bloquinho, tendo Ciro Gomes como candidato potencial. Por interferência do presidente, o bloco foi desfeito. Hoje, PDT e PCdoB estão fechados com Dilma e Ciro Gomes isolado no PSB, com pequenas chances de ser candidato pela legenda. O mais provável é que o PSB apóie Dilma. Ao mesmo tempo em que inviabilizou o surgimento de candidatos dentro da base, Lula também trabalhou para ter ao seu lado o PMDB, maior legenda do país. Abriu mais espaço no governo para a legenda, dando ministérios importantes (Agricultura, Comunicações, Saúde, Defesa, Integração Nacional e Minas e Energia), além de outros postos-chave na administração federal. Em seguida, Lula passou a interferir nos diretórios estaduais a fim de evitar que o acordo com o PMDB foi inviabilizado. Em Minas Gerais, para ajudar resolver o problema, foi fundamental a desistência de José Alencar em disputar uma vaga para o Senado. Mais uma ação direta de Lula. Lula teria tentado, mas não conseguiu, impor ao PMDB o seu nome preferido para vice de Dilma. Nada contra Michel Temer, mas acreditava que Henrique Meirelles poderia agregar mais à candidatura de Dilma. Insistiu até onde lhe era permitido politicamente. O PMDB está fechado com Temer com a benção de Lula. Além disso, marcou outro gol ao manter Meirelles no BC: garantia de que a economia vai estar protegida dos humores do mercado. Às vésperas de sua então ministra deixar a Casa Civil, Lula lançou o PAC 2, um conjunto de investimentos para o seu sucessor. Um dos objetivos era marcar a saída da ministra e, ao mesmo tempo, sinalizar para o eleitor que ela, como candidata do governo, é a que mais terá compromisso com o novo programa. Para manter a economia em crescimento e para que o programa Minha Casa, Minha Vida possa avançar neste ano, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a prorrogação da isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para materiais de construção até dezembro. Como uma sinalização para os trabalhadores e aposentados, enviou a Lei de Diretrizes Orçamentárias ao Congresso Nacional prevendo aumento do salário mínimo até 2013 (2011: R$ 535,91; 2012: R$ 588,94; 2013: 649,29). As expectativas econômicas para o ano são excelentes. Há quem diga que o desemprego pode cair para 6% já que o ritmo de contratações continua forte. O PIB deve crescer acima de 5% e a inflação, mesmo mais alta, não deverá ser escandalosa. Não é à toa que, durante o 4º Congresso do PT, realizado em fevereiro, Lula disse: “Eleger a Dilma é a coisa mais importante do meu governo. Eleger a Dilma não é secundário para o presidente da República, é a coisa prioritária na minha vida neste ano.” Lula tem ainda algumas outras “super” missões. Principalmente, resolver a questão do PMDB e do PT em Minas e, por fim, resolver a questão Ciro Gomes que ainda não foi concluída apesar de encaminhada. Considerando que Dilma é novata em disputas eleitorais e que seu potencial de crescimento ainda é muito grande, as ações estratégicas de Lula na campanha em conjunto com o ambiente econômico podem resultar em uma inversão de expectativas. No mínimo, aponta para uma disputa muito acirrada. |
Blog do cientista político Murillo de Aragão, presidente da Arko Advice Pesquisas (www.arkoadvice.com.br). Mestre em ciência política e doutor em sociologia (estudos latino-americanos) pela Universidade de Brasília. Escreve sobre análise estratégica e crítica política direto de Brasília, leia mais.
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